29 de janeiro de 2015

Representatividade da mulher na Literatura

Até 2013 eu não me importava muito com esse tipo de discussão. Creio que na minha doce ilusão de final de Ensino Médio achava que o mundo se tornara instantaneamente igualitário quando as feministas francesas queimaram seus sutiãs no meio da rua. Não podia estar mais enganada! Conhecendo muitas pessoas e vivendo muitas situações, percebi que ainda estamos longe do ideal. "Mas a literatura é diferente! Publica-se e vende-se livros pelo conteúdo, certo?" Bom, errado. Comecei a pensar nisso quando vi um filme (meio que não autorizado) sobre a vida da J. K. Rowling. Depois de ser recusada por várias editoras, ela finalmente conseguiu uma que publicasse "Harry Potter", no entanto, sugeriram que ela usasse suas iniciais, "para que não soubessem que ela era mulher e os meninos também comprassem os livros". Pois é! Um tempo depois, conheci o projeto "Leia Mulheres em 2014", que existe tanto no Brasil como no exterior. "Se é preciso de um projeto para atrair atenção das mulheres, então deve ser um problema real"! E foi quando passei adotar essa causa.
Há algumas semanas esbarrei com uma pesquisa sobre o perfil dos autores brasileiros e fiquei bastante desapontada. Seguem alguns dados:


Se você pensar que, segundo o Instituto Pró-Livro, 57% dos leitores (dentro da amostra entrevistada) eram mulheres e que as mães vem à frente dos pais no incentivo à leitura, é dicotômico que elas sejam tão negligenciadas, tanto como personagens quanto como escritoras.
Já vi muita gente falando que o gênero do autor não é algo determinante durante a compra, e concordo. Ninguém compra deliberadamente livros escritos por homens (pode até ser que exista quem faça isso, mas...). É algo muito maior! Vamos começar do início. Finja que sou uma mulher, na casa dos 40, casada, com 2 filhos; trabalho fora e, quando chego em casa, tenho que fazer a janta, ajudar as crianças com o dever, catar a bagunça, tomar banho, colocar as crianças na cama e, então, dormir; meu sonho é escrever, mas como? Agora vamos trocar de realidade. Sou um homem, na casa dos 40, casado, com 2 filhos; trabalho fora, chego em casa, assisto televisão, tenho janta na mesa e todo o tempo do mundo para mim; meu sonho é escrever e, como sou homem, é sancionado pela sociedade que eu tire um ano sabático para correr atrás dos meus sonhos. Percebe a diferença? A sociedade oprime tão sutilmente a mulher que ela é impedida de escrever antes mesmo de pensar nisso! 
Agora vamos para a editora. Ao receber vários manuscritos, inconscientemente o editor (ou quem quer que seja que separa os originais) já olha diferente para o nome de uma mulher. Ou você acha que o Raphael Dracon teria sido publicado se fosse mulher? Talvez, quem sabe... E quando são publicadas, muitas autoras são consideradas "chick-lit", "literatura de mulherzinha", uma literatura pior, menor, para essas "mulherzinhas que gostam de romances açucarados". Essa é a impressão que tenham quando vejo o termo "chick-lit". E se um homem/garoto ler e gostar desse "gênero", meu Deus, o mundo acabou! A questão é que ninguém pensa que o conteúdo das histórias é basicamente o mesmo de "A Moreninha", "A Viuvinha", "Senhora"... Mas esses são "clássicos do romantismo brasileiro"! Ok. E quem você acha que consumia avidamente esses livros no séculos XIX? Eles são os chick-lits primeira república! Mas não há problema algum com eles, sabe porque? Seus autores são homens, brancos e burgueses, formados no exterior e de boa família. O que estou dizendo é que desde o Império temos o mesmo padrão na literatura. Será que isso não é suficiente para se perceber que está na hora de mudar? 
A questão é, como? Bom, um ótimo jeito de começar é comprar e ler livros de autoras mulheres intencionalmente. Isso porque, além de produzir conteúdo, as editoras estão interessadas em vender. Quanto mais livros de mulheres forem vendidos e divulgados, mais eles vão se abrir para a publicação das mesmas. E o mesmo funciona para as outras minorias (não brancos, LGBTs...). Assim como a mídia pode ser nossa inimiga, ela também pode ser nossa amiga. Quanto mais as minorias tomarem esse espaço, mais oportunidades se abrirão no futuro. Para isso, nós, leitores, temos que tomar um papel ativo na mudança de um mercado que muito além de simples entretenimento, provê as bases da representatividade de uma sociedade.

Clique nos links abaixo para saber mais sobre o assunto:

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