95 páginas
Rocco
ISBN: 8532508723
Classificação: 5/5 estrelas
Neste longo texto ficcional em forma de monólogo, Clarice Lispector se confunde com a personagem, uma solitária pintora que se lança em infinitas reflexões sobre o tempo, a vida e a morte, os sonhos e visões, as flores, os estados da alma, a coragem e o medo e, principalmente, a arte da criação, do saber usar as palavras num jogo de sons e silêncios que se combinam. Tudo é revelado através do olhar dessa pintora-narradora, que cai em estado de graça em plena madrugada.
Minha primeira impressão de Água Viva foi a de um texto puramente metalinguístico e, mais do que isso, com uma forte presença da própria Clarice. Isto é, minha impressão era de que eu estava na mente da Clarice enquanto ele escrevia essa carta bem psicótica para um "eu masculino", logo após uma sessão de terapia, onde teve algum insight sobre o sentido da vida. Mas eu não falo isso como uma crítica, muito pelo contrário. É simplesmente genial
" (...) escrevo por profundamente querer falar."
Durante a maior parte do livro a narradora (que se explicita como um eu feminino) repete que fala sobre o momento presente. Com isso ela me passou a impressão de que tenta compreender os processos do próprio pensamento e do próprio eu. O que a forma, quem ela é, o por trás do pensamento como ela mesma diz. A obra toda gira em torno desse processo de se entender e entender seu papel no mundo e o que é o verdadeiro ser. Parece sem sentido, e realmente é, mas lendo o livro faz um pouco mais de sentido.
Não só sobre ela, a narradora fala sobre o ser humano de maneira geral. Frustrações, esperanças, dores...
"E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Dói."
Como é dito pela pesquisadora Lúcia Helena, na apresentação da aba do livro, Água Viva é um lindo poema em prosa. Com 95 páginas, eu levei 3 semanas para ler o livro inteiro. É simplesmente impossível ler tudo direto. É preciso ler um paragrafo, reler, deglutir e então prosseguir. Mas valeu cada segundo. Se você nunca leu Clarice Lispector, essa não é a melhor obra para começar. Leia Felicidade Clandestina, Laços de Família e depois parte para algo tão complexo. Quem não está acostumado pode se assustar com a audácia de Clarice em seu poema-prosa-monologo.
Recomendo para todos que gostam de introspecção e que já leram Clarice(e gostaram, claro).
"Mas porque esse mal-estar? É porque não estou vivendo do único modo que existe para cada um de se viver e nem sei qual é."


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